Acesso a cursos e palestras técnicas é cada vez mais difícil para os reparadores que não fazem parte de associações ou grupos de oficinas mecânicas
Na imensa extensão continental brasileira, circula uma frota de 24,3 milhões de veículos. A maior parte, 73% do total, tem idade entre 4 e 20 anos, o que demonstra um enorme potencial para as oficinas mecânicas. Nas capitais ou nas regiões mais remotas, há no País, segundo o Sindipeças, 120 mil oficinas que empregam mais de 600 mil pessoas. Em outras palavras, são 202 veículos para cada oficina existente, desconsiderando a contagem do número de concessionárias.
Segundo esses números, há mercado para todos. Mas no dia-a-dia a realidade é outra. Com a evolução da tecnologia, principalmente da eletrônica embarcada, a competitividade fica cada vez mais à mercê do conhecimento técnico, que nem sempre é possível às oficinas, devido à falta de acesso aos treinamentos e cursos proporcionados por fabricantes por intermédio de distribuidores.
Uma realidade que afeta diretamente a oficina de Valmor Imfeld, proprietário da Ômega Serviços, localizada em Cuiabá (MT). Ele explica que para treinar a sua equipe, dois mecânicos e dois profissionais de regulagem, é ele quem viaja para outros estados em busca de cursos. Todo o aprendizado é repassado à equipe. “O que é oferecido para nós na região são palestras anuais por intermédio de distribuidor. Também uma vez por ano, a Magneti Marelli realiza um treinamento. Porém, cursos técnicos nunca nos ofereceram”, afirma.
Ele conta que as palestras técnicas são suficientes para atualizem os mecânicos. “O que nos falta são cursos da parte elétrica. Os fabricantes privilegiam as concessionárias e até o Senai, que ofertava cursos, agora estipula que é preciso um número mínimo de participantes. Ou seja, eles querem que os mecânicos se unam para solicitar os cursos. O que é muito complicado”, lamenta.
Outra dificuldade apontada pelo empresário são os altos custos que uma oficina nos dias de hoje requer. “Com toda essa tecnologia, temos que ter equipamentos, que são caros, tem que saber administrar, ter giro de capital e profissionais qualificados. No tempo do meu avô (a oficina está na terceira geração), era tudo mais fácil. Hoje, vejo que tem mais oficinas fechando do que abrindo. Não falta serviço, mas qualificação”, compara.
As mesmas dificuldades vivenciadas por Imfeld são sentidas pelo mecânico José Ronaldo Lima da Silva, do Auto Center Santo Antônio, em Brasília (DF). “Apesar de estarmos na Capital Federal, estamos distante a 30 minutos do centro. Quando há treinamento, é preciso deslocar a equipe, o que prejudica os trabalhos na oficina”, explica.
Segundo ele, vários treinamentos já foram solicitados aos distribuidores, mas eles são restritos, no centro da cidade. “Para nos atualizarmos, quando é inviável participar dos treinamentos, recorremos à internet e às publicações do segmento. O que nos falta mesmo é mais treinamentos na parte de injeção eletrônica”, ressalta.
CURSO PARTICULAR

Para driblar a carência de treinamentos, praticamente inexistente na cidade de Curvelo (MG), distante a 170 km de Belo Horizonte, o empresário Marco Antônio Costa, da J&M Peças e Serviços, recorre a aulas particulares. “Pagamos para ter treinamento particular e também recorremos a vídeos de palestras e às publicações do setor para nos mantermos atualizados. Porém, precisávamos de mais cursos em mecânica em geral, principalmente na parte eletrônica”, comenta.
Ele diz que neste ano ainda não houve nenhum treinamento. “Apenas no ano passado, o Sindirepa realizou um sobre injeção eletrônica. A nossa dificuldade é tirar o mecânico para ir a Belo Horizonte. O que nos deixa com desfalque de pessoal, pois é inviável ir e voltar no mesmo dia. A equipe é composta por cinco profissionais (quatro mecânicos e um eletricista)”, diz, afirmando que uma alternativa seria o ensino a distância, com cursos via internet, por meio de parcerias com escolas, com salas prontas e infraestrutura. “Dessa forma, os mecânicos se uniriam, as aulas poderiam ser até cobradas, pois a demanda seria grande. Todos precisam de treinamento. No ano passado, se foram abertas três oficinas na região, dez pelo menos foram fechadas. Parar sermos competitivos, investimos em treinamento e equipamentos, temos certificados IQA e ISO 9001. Mas essa não é a realidade de todos”, informa.
COMPLEXIDADE

Cada vez mais avançadas, as tecnologias são mutáveis e não é uma tarefa fácil acompanhálas, principalmente quando o acesso à informação não favorece. Por outro lado, muitas tecnologias têm sido o braço direito dos reparadores, principalmente a internet, meio que é a principal fonte de informação para o chefe de oficina, Dejacyr da Silva Costa, do Center Car Santa Terezinha, em Guaraciaba do Norte, distante a 300 km, da capital cearense. “Não temos nenhum apoio. Às vezes, os distribuidores realizam palestras técnicas, mas a nossa atualização acontece mesmo pela internet e pelas publicações do setor. Como exemplo, neste ano, até agora, só tivemos um treinamento sobre correia sincronizada. É muito pouco”, comenta.
Na experiência vivenciada diariamente, Costa sabe que o profissional precisa se reciclar sempre. “Os sistemas eletrônicos são muito complexos, e, primeiramente, o mecânico tem que ter o conhecimento de elétrica. De minha parte, sempre me atualizo e passo o conhecimento aos nossos profissionais”, diz.
UNIÃO FAZ A DIFERENÇA

No estado de Santa Catarina, o Núcleo de Automecânicas, composto por 300 oficinas filiadas, mostra o quanto a união faz a força. Falta de treinamento e cursos técnicos é uma realidade distante deles. Roberto Turatti, chefe de serviços da Invest Auto, localizada em Balneário Camboriú, informa que nesse sentido eles são muito bem servidos. “Preparamos uma programação de treinamentos a partir das necessidades dos integrantes do núcleo. Em nossas reuniões são levantados quais são os treinamentos primordiais a serem realizados”, conta.
Uma realidade bem diferente das oficinas que não participam de grupos. Exemplo disso, é que no mês de setembro ocorre em Santa Catarina o Encontro Estadual de Automecânicas, que durante um dia inteiro acontece uma série de palestras e treinamentos. “São palestras de todos os tipos, desde técnicas até motivacionais. Aqui na nossa região, temos muito apoio dos fabricantes, porém, às vezes, acontece de alguns treinamentos serem postergados pelos distribuidores que fazem a agenda. Eles podem demorar um pouco, mas são realizados”, comenta.
Já na capital do Espírito Santo, o empresário Marco Gregório da oficina 7 Car, conta que o apoio é dado pelo Sindirepa. “No final de julho, tivemos o Encontro do Reparador, com a realização de treinamentos promovidos por fabricantes. São palestras técnicas, pagas, realizadas durante um determinado período. Mas elas não são suficientes”, ressalta.

Segundo Gregório, para estar mesmo atualizado é preciso arcar com cursos por fora. “As palestras que recebemos são sobre novidades e lançamentos, mas a parte técnica não é o forte. Para se aprofundar é preciso participar de cursos de especialização em capitais como São Paulo e Belo Horizonte (MG)”, afirma, complementando que sejam palestras técnicas ou cursos, só tem acesso quem possui uma rede de relacionamento. O que mostra a importância da união, do associativismo.
Também em Araraquara, interior de São Paulo, o apoio vem do associativismo, por meio da Associação dos Reparadores de Araraquara. “Participamos de muitos cursos gratuitos, promovidos pela Associação. Já os treinamentos realizados pelos fabricantes são muito repetidos. Aqui, sentimos falta de diversificação e de um cronograma anual de treinamentos organizados pelos distribuidores. O que não acontece”, relata Oseas de Lucas Salatino Pereira, proprietário da Auto Eletro Bene.
 |
Para manter seus profissionais sempre atualizados, Invest Auto promove, em parceria com oficinas da região, palestras e cursos
técnicos com regularidade |
|
Para o aperfeiçoamento no dia-adia, o empresário defende que o ideal é um cronograma anual, com temas que abordem as partes técnica, motivacional e administrativas, que facilitem e incrementem a rotina das oficinas. “Treinamentos estes que devem envolver desde o empresário da reparação, em temas específicos, como o administrativo, até a equipe de funcionários, na parte mais técnica e de relacionamento com o cliente”, diz. A mesma opinião tem Marco Gregório. “As oficinas pecam no atendimento ao cliente, na questão do relacionamento. É preciso se aprimorar nesse ponto e carecemos de treinamentos nesse sentido”, revela.
Na prática, a vivência das oficinas demonstra que unidas elas conseguem mais acesso aos cursos e treinamentos. Isoladamente, principalmente nas regiões mais distantes das capitais, não apenas os fatores geográficos são obstáculos, como também a falta de relacionamento. Com toda a evolução tecnológica, quem focar no trabalho individual terá cada vez mais dificuldades em se aperfeiçoar. Como diz o ditado, a união faz a força.
Por: Karin Fuchs